A TRAGÉDIA DO BAR DO BRAGA

De início, faço questão de agradecer os votos dos amigos; a torcida foi tão grande que aqui estou eu, de volta aos blogs. E vou contar mais um causo de bancário.
Neste, vou precisar mudar o nome do protagonista. É que ele ainda está em plena atividade, como gerente geral, e certamente vai ler esta postagem. A mudança de nome, aliás, foi condição para me autorizar a contar a história.
Digamos, então, que o nosso herói se chama Braga. É carismático, comunicativo e tem um coração enorme; entretanto, é também dado a eventuais (e passageiras) explosões. Detesta, principalmente, o ruído de choro; quando alguém chora perto dele, o Braga perde as estribeiras.
Celibatário convicto e gerente geral há mais de 20 anos, é isento de despesas familiares e desfruta de boa condição financeira, que lhe permite usufruir dos prazeres da vida.
Viaja ao exterior todos os anos e, com essas viagens, organizou ao longo do tempo uma invejável coleção de bebidas, desde o legítimo saquê japonês aos mais finos vinhos e conhaques europeus, alguns até seculares, e os melhores uísques do mundo, com direito inclusive a um autêntico Royal Salute fabricado há mais de 30 anos.
Para melhor organizar o seu valioso estoque etílico, o nosso herói mandou construir um bar e adega sob medida, em vidro blindex, fixado à parede da sala de seu amplo apartamento. Em um compartimento escondido do móvel, guardou duas modestas garrafas de Cointreau e Santa Felicidade, que recebera de colegas do banco e por isto conservara.
Pouco depois de instalado e arrumado o bar, menina de seus olhos, saiu o Braga num sábado, para dar um passeio. E, ao retornar, encontrou a cena desoladora: no chão, os pedaços de vidro blindex se misturavam aos cacos do que haviam sido as preciosas garrafas.
Sobre o legítimo (e caríssimo) tapete persa, a cruel inundação de um líquido sem cor definida, aleatória mistura de vinho, conhaque, uísque, saquê, licores e sabe-se lá quantas outras valiosas bebidas. A síndica do prédio e a moradora do apartamento vizinho, na sala, consolavam a velha Genésia, fiel empregada de muitos anos, que soluçava baixinho.
O coração do Braga deu um salto, apavorado. E piorou quando a Genésia, vendo entrar o patrão, voltou a chorar bem alto e correu para ele, soluçando:
- Seu Braga, não foi minha culpa! Eu não fiz nada! Tava passando e o bar caiu!
Era demais! O nosso herói calculou por alto: bar, garrafas e tapete, um prejuízo de uns 40 mil reais. Doeu! Mas, naquele instante, o pior era o choro da velha, aquele “Hu-hu-hu-hu” incessante, em seu ouvido. E o Braga soltou um de seus famosos gritos:
- Peraí, Genésia! Pára de chorar!
A velha não parou. E, por entre os soluços, disse:
- Mas não quebrou tudo não, seu Braga! Olhe aqui, olhe!
Estendia as mãos, com duas garrafas: o Cointreau e o Santa Felicidade. Sem trocadilhos, foi a gota que faltava. Ao vê-las, os olhos do Braga se arregalaram; um pouco de espuma se formou no canto da boca, sacudida por um riso nervoso. Ele arrebatou as garrafas de Genésia:
- Ah! Não quebrou não, foi?!
Arremessou, com toda força, as garrafas contra o chão, onde se transformaram em novos cacos, enquanto as humildes bebidas, democraticamente, se misturavam às suas aristocráticas similares. E as mulheres correram da sala, enquanto o Braga, como alucinado, repetia sem parar:
- Agora quebrou, viu? Agora quebrou!!!