O DIA EM QUE QUASE BATI AS BOTAS

Bem, neste triunfal retorno acho que me cabe justificar desde logo a ausência; que, creiam-me, decorreu de fatores extremamente alheios à minha vontade, como a seguir se verá.
Quase na casa dos 60 anos, fumante há cerca de 45, sedentário convicto, tendo como esporte apenas um ocasional futsal, apreciador da boa mesa, aí incluídas a culinária baiana, massas, carnes e vários etcs., e emérito bebedor de cerveja, sou apontado pelo meu cardiologista como um exemplo a não ser seguido.
Apoiado na desagradável verdade de terem meu pai e meu irmão mais velho morrido de infarto, diz-me sempre o ilustre doutor que, de todos os fatores de risco possíveis, eu tenho um a mais. E há cerca de 8 anos tenta convencer-me de que, no caso, tamanha fartura longe está de ser animadora.
Registre-se, em minha defesa, que ao longo de todo este tempo tenho conseguido resistir aos seus (dele) solertes argumentos (caramba, este “solertes” foi resgatado do barril da extinção!) e normalmente me safo dos checapes anuais, apenas com novos remédios contra colesterol e triglicérides.
Entretanto, devido ao advento de uma desagradável pressão no peito, este ano deixei-me convencer e, no dia 19 de maio passado, internei-me para a realização de um cateterismo, aquele aprazível exame em que nos enfiam uma mangueirinha pelo sistema sanguíneo e bombeiam um contraste específico, para checar como anda o tráfego em nosso coração.
Pelo jeito, no meu a coisa andava pior do que na Marginal Tietê em dia de chuva brava; quase nem andava. Descobriram, na linguagem médica, “uma obstrução preocupante”; o que, no bom português vulgar, significa uma candidatura ao (nem tanto) popular “pijama de madeira”; com boas chances de ser eleito, diga-se de passagem.
Por isto, os médicos decidiram manter-me internado, enquanto o bendito plano de saúde autorizava a cirurgia urgente e necessária. Como já se sabe, é mais difícil arrancar dinheiro dos planos de saúde, do que tirar o Dida da seleção do Parreira; assim, apenas no dia 26 foi realizada a tal cirurgia.
Depois, foram mais 3 dias na UTI e outro no apartamento hospitalar, antes de receber alta, o que só aconteceu no dia 30 de maio. Contabilizam-se exatamente 11 dias de seqüestro hospitalar, período do meu involuntário desaparecimento.
É no que dá não ser presidente: enquanto concedem ao Lula o título de “Doutor Honoris Causa” e lhe dão um diploma, nomeiam-me “Paciente de Alto Risco” e premiam-me com um spa obrigatório: depois de dois dias de jejum absoluto e mais 9 comendo aquele ranguinho saboroso de hospital, voltei 3 quilos mais magro. E, pela quantidade de remédios que estou tomando, a tendência é emagrecer mais ainda; nem vai sobrar espaço pra comida.
Isto, sem contar que o cardápio será drasticamente modificado (para pior, claro) e foram-se os meus cigarrinhos e cervejinhas. Porém, mesmo assim estou no lucro: continuo vivo e na companhia dos amigos.
Em outros posts, vou contar alguns lances engraçados que ocorreram no hospital. Hoje, só quero dizer que estou muito feliz em poder estar de novo com vocês!
Este era eu, antes do forçado SPA...