A FREGUESIA DA MISÉRIA

Hoje, nenhum assunto dito “importante”. Vou deixar de lado a trambicagem no futebol e na política; esquecerei até mesmo o ridículo referendo que levou centenas de milhões do povo, para deixar tudo como estava antes. Uma dispendiosa ponte eleitoral, do nada para lugar nenhum.
Às vezes, pruridos filosóficos me atacam; são desencadeados por coisas ou pessoas, que vejo todo dia e nunca VI realmente, até que um belo dia os meus olhos se abrem.
No caso, uma mendiga que peregrina diariamente pela rua onde moro. Mais do que magra: esquálida. Creio que deve ter uns 15, talvez 17 anos, embora seja difícil determinar a sua idade sob os trapos e a sujeira que veste: a verdadeira roupa da miséria.
Vive pelas ruas; pede comida pelas portas. Às vezes, desaparece por alguns dias. Os vizinhos comentam que deve ter sido presa; segundo eles, mais antigos na área do que eu, a adolescente cheira cola, rouba e freqüentemente se envolve em episódios de violência. Uma mendiga/marginal; mas, pensando bem, todos eles não o são?
Ontem, eu a vi na rua. Imunda e descalça, como sempre. Uma diferença: a barriga saliente, sinal inegável de gravidez. Mais um pobre desgraçado, neste mundo; para ser criado sem instrução, sem segurança, sem dignidade, sem amor. Não como um bebê comum, um canto de vida; desde antes do nascimento, um farrapo de vida.
Com ela, outra mendiga jovem; conversando como se o mundo fosse belo, como se Deus sorrisse para todos. Passaram pelo meu carro e, pela janela aberta, eu a ouvi dizer à outra:
- Agora, vamos naquela rua de trás; eu tenho um cliente lá.
Disse isso naturalmente; uma frase trivial, como um vendedor que falasse a outro. E eu, cidadão da quase extinta classe média, fiquei pensando: até que ponto nossas almas endureceram? Será que já não pensamos mais em redimir esses seres humanos, que vivem quase como animais? Será que dar um prato de comida, ou alguns centavos, é suficiente para serenar as nossas consciências?
Será que estamos criando uma freguesia da miséria?
Às vezes, pruridos filosóficos me atacam; são desencadeados por coisas ou pessoas, que vejo todo dia e nunca VI realmente, até que um belo dia os meus olhos se abrem.
No caso, uma mendiga que peregrina diariamente pela rua onde moro. Mais do que magra: esquálida. Creio que deve ter uns 15, talvez 17 anos, embora seja difícil determinar a sua idade sob os trapos e a sujeira que veste: a verdadeira roupa da miséria.
Vive pelas ruas; pede comida pelas portas. Às vezes, desaparece por alguns dias. Os vizinhos comentam que deve ter sido presa; segundo eles, mais antigos na área do que eu, a adolescente cheira cola, rouba e freqüentemente se envolve em episódios de violência. Uma mendiga/marginal; mas, pensando bem, todos eles não o são?
Ontem, eu a vi na rua. Imunda e descalça, como sempre. Uma diferença: a barriga saliente, sinal inegável de gravidez. Mais um pobre desgraçado, neste mundo; para ser criado sem instrução, sem segurança, sem dignidade, sem amor. Não como um bebê comum, um canto de vida; desde antes do nascimento, um farrapo de vida.
Com ela, outra mendiga jovem; conversando como se o mundo fosse belo, como se Deus sorrisse para todos. Passaram pelo meu carro e, pela janela aberta, eu a ouvi dizer à outra:
- Agora, vamos naquela rua de trás; eu tenho um cliente lá.
Disse isso naturalmente; uma frase trivial, como um vendedor que falasse a outro. E eu, cidadão da quase extinta classe média, fiquei pensando: até que ponto nossas almas endureceram? Será que já não pensamos mais em redimir esses seres humanos, que vivem quase como animais? Será que dar um prato de comida, ou alguns centavos, é suficiente para serenar as nossas consciências?
Será que estamos criando uma freguesia da miséria?