10.06.2005

O BISPO E O SANTO RIO


Sou contra a transposição do Rio São Francisco.

Claro, esta não é uma opinião abalizada. Não conheço todo o projeto e, ainda que o conhecesse, certamente não entenderia os detalhes técnicos.

Sou contra, apenas, com base na sabedoria popular; mais exatamente, no velho ditado que reza: “não adianta desvestir um santo para vestir outro”. O Velho Chico não vai dispor de mais águas porque foi transposto; pela lógica, a água desviada para um novo lugar vai fazer falta no antigo. E o nordestino vai levar ferro novamente; pelo menos, os beneficiados pelo curso atual.

Entretanto, o Governo alega que essa transposição vai beneficiar a milhares de brasileiros; e deve acreditar mesmo nisto, para se dispor a gastar milhões de reais na execução do projeto.

Assim, acho ridícula a atitude do bispo de Barra (BA), Dom Luiz Flávio Cappio, com a sua greve de fome contra a transposição do rio; e mais ridícula ainda a reação do Governo, recuando no propósito de transposição e prometendo “um diálogo mais amplo” sobre o assunto.

Se o diálogo e os estudos sobre o assunto ainda não haviam sido suficientes, por que iniciar o projeto? E, se o eram, por que parar apenas pela greve de fome de um homem, se o projeto iria matar a fome de milhares de outros? O bispo passa fome há alguns dias, por vontade própria; os sertanejos o fazem porque não têm outro jeito... e há muito tempo. A diferença, claro, é que um é bispo; os outros são apenas povo brasileiro.

Ou o Governo não tinha certeza do que estava fazendo, ou teme o confronto com o clero e a opinião pública; se o teme, é exatamente porque não tem argumentos sólidos para defender o seu próprio projeto. Talvez o bispo nos poupe de uma nova “Transamazônica”, obra faraônica que custou milhões ao País e até hoje permanece inacabada, certamente porque não era tão necessária assim. Talvez este projeto fosse a nossa Transamazônica fluvial.

Mesmo assim, o que me revolta neste episódio é a interferência de um religioso em um assunto de ordem exclusivamente material. Será que certos prelados ainda vivem na antiguidade, quando a Igreja Católica mandava no mundo, nomeando ou depondo reis, e todos os países tinham que se dobrar à sua vontade?

Não sou um conhecedor da Bíblia, mas, segundo os próprios sacerdotes católicos, foi Cristo quem disse: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, marcando assim a diferença entre as necessidades terrenas e as espirituais; que os governos decidam os destinos dos países, deixando às religiões o trabalho de reconforto espiritual do homem. Os presidentes não rezam missas; por que os sacerdotes querem dirigir as nações?

Sou contra a transposição e a atitude do religioso. Mas a verdade é que ela me faz lembrar de outro antigo ditado popular, muito em voga quando eu era menino: “Vá reclamar com o Bispo!”.

Aqui no Brasil, pode dar certo. Porque através do bispo se dobra o Presidente da República!

2 Comments:

Blogger Paulinho said...

Também não concordo com a atitude do bispo, mas tenho certeza de que ainda não se esgotaram as dúvidas para iniciarmos um projeto desta magnitude. Não podemos exigir que um doente trabalhe mais do que pode, assinando sua sentença de morte. É preciso recuperá-lo antes.

9:29 AM  
Blogger Flávio said...

Paulinho: com certeza. Mas não é ridículo que um bispo tenha que interferir (indevidamente), para que o Governo descubra o que todos sabemos?

10:03 AM  

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