7.10.2017

69


Fica cada vez mais difícil levantar.

E não estou falando de uma parte específica do corpo, mas de todo ele. As juntas começam a ficar duras, como se quisessem compensar outros órgãos que amolecem. Cada vez, a gente demora mais pra ficar em pé. Em todos os sentidos. 

Dizem que a experiência nos ensina o melhor caminho. Ainda bem, porque a cada dia os nossos passos se tornam mais lentos e a gente leva o dobro do tempo, para caminhar a mesma distância. É bom saber o caminho mais curto.

As cabeças demoram mais para responder, a cada dia. Isso mesmo: as duas. Uma tem mais dificuldade para lembrar de tudo, e a outra para fazer o que antes fazia sem qualquer esforço e com muito prazer.

A isso, se chama envelhecer. É algo de que não podemos fugir, a menos que fujamos também do mundo; mas a gente se acostuma, com o passar do tempo, e começa a acreditar que não está tão ruim assim. Pelo menos, passamos menos tempo nas filas.

O pior de tudo, acredito, é a propaganda enganosa; esse negócio de “melhor idade”, que alguém inventou, para vender cruzeiros e viagens de férias a quem, na verdade, só quer ficar em casa. Quando muito, sair pra almoçar ou pra um cineminha.

Melhor idade era aquela em que os hormônios estavam por todos os cantos e não cabiam em nosso corpo. Em que não tínhamos medos, cuidados ou preocupações. Em que cada dia era uma nova aventura, com novas sensações e descobertas.

Esta é a famosa “idade do metal”: prata nos cabelos, ouro no bolso e chumbo nos ovos. Acho que recebi mais dos outros dois, porque continua a me faltar um. Até hoje, ainda não consegui alcançar o tal do ouro; em compensação, sobram a prata e o chumbo.

É, também, a idade em que os filhos completam a mudança radical. Quando eram pequenos, eles achavam que você sabia tudo; depois passaram a achar que sabiam mais do que você. Na velhice, eles já acham que você não sabe nada; e se vingam de todas as restrições que você dava a eles.

Mas é assim mesmo. Assim vem acontecendo a todos, desde que o mundo é mundo, e assim continuará a ser. Somos felizes, quando envelhecemos com saúde; afinal, a única coisa pior do que ficar velho é não ficar.

Por que estou escrevendo todas estas bobagens? Porque me deu vontade, e esta é uma das poucas vantagens que nos traz o envelhecer. Enquanto pensam que estamos senis, podemos fazer o que nos der na telha.

Vou aproveitar, portanto; hoje é meu aniversário. Trabalhei duro o dia inteiro, porque não dá pra viver com a aposentadoria; lá fora está chovendo pra cacete e nem dá pra pensar em sair. Mas, pelo menos, o idoso ainda tem direito a fazer algumas coisas.


É bom fazer 69! 

6.01.2017

O PAÍS DAS PALAVRAS DE ORDEM



Não por acaso, o Brasil é uma das poucas nações que têm uma frase escrita na  bandeira.
Somos o País das palavras de ordem. Isto está na nossa gênese, desde o tempo de Cabral, quando Pero Vaz de Caminha escreveu que “Em se plantando, tudo dá”. Tiradentes, ícone nacional, cunhou a “Liberdade, ainda que tardia”, e D. Pedro I gritou, às margens do Ipiranga, a famosa “Independência ou morte!”.
Em tempos menos antigos, conhecemos “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”; vivemos “O petróleo é nosso” e fomos à guerra com a pitoresca “A cobra vai fumar”. Durante o governo militar, um lado gritava “Brasil: ame-o ou deixe-o” e o outro respondia “Abaixo a ditadura”.
Vieram a “Diretas Já” e, depois dela, os “Fiscais do Sarney”; então, foi a vez do “Fora, Collor”, que vivia na boca dos Caras Pintadas. Claro que esqueci muitas delas; afinal, somos o País das Palavras de Ordem. Estas são apenas algumas que me vêm à memória.
Aí, veio a era do PT; e o Brasil se consolidou como o paraíso das frases de efeito; como esse pessoal adora uma palavra de ordem! 
Primeiro foi “Lula lá”, depois veio “Deixa o homem trabalhar” e, quando ele não podia mais ser reeleito, surgiu Dilma “Para o Brasil seguir mudando” e, na segunda vez, “Mais mudanças, mais futuro”. O resultado, todo mundo já sabe: apareceu a “Fora, Dilma”, que resultou na “Tchau, querida”.
Hoje, vivemos o tempo do “Fora, Temer”. E, diante da possibilidade desse desfecho, o PT luta para trazer de volta “Diretas Já”; se deu certo uma vez, pode dar a segunda. E é preciso que o símbolo maior da esquerda seja eleito logo, antes que o desfecho de algum processo possa, eventualmente, carimbar “corrupto” na sua testa e deixá-lo inelegível.
Não sei quanto a vocês, mas eu confesso: já estou cheio de palavras de ordem, que nos levam a um buraco cada vez mais fundo. Acredito que precisamos de menos palavras e mais ordem; menos falação e mais ação.
Precisamos, sim, de uma reforma política; mas, principalmente, precisamos de uma reforma nos políticos. Precisamos de uma reforma previdenciária, mas precisamos mais de uma reforma das pessoas que administram a previdência; precisamos de uma reforma trabalhista, mas precisamos mais de mudar a mentalidade de empresários e trabalhadores.
Até aqui, seguir palavras de ordem não deu muito certo para o Brasil. Que tal, daqui pra frente, fazer como outros países, onde se fala menos e se age mais? Onde os eleitores votam com consciência e cobram dos eleitos, e os políticos administram com seriedade? Onde todos buscam o melhor para a coletividade e não para eles mesmos?

São as ações, e não as palavras, que constroem um grande país. Vamos adotar o trabalho, e abandonar as palavras de ordem. 
Ou continuaremos nessa desordem.

12.03.2015

UMA JOGADA DE MESTRE


Por que o PT retirou o apoio a Eduardo Cunha, sabendo que assim ele aceitaria o pedido de impeachment contra Dilma Rousseff?
Parece ilógico, mas a razão é simples: para se livrar de uma chantagem que vinha causando ao partido um prejuízo sem tamanho. Além de ter que lidar com a própria lama, exposta pela PF, o PT vinha sendo salpicado pela lama de Cunha; e o Brasil estava atolado nesse lodaçal.  

Uma jogada tão arriscada quanto brilhante e que deve ter sido bolada pelo maior estrategista político do País: o eterno Presidente Lula; ou Brahma, ou Barba, ou Nosso Mestre, codinomes com que assombra a Operação Lava Jato.
O impeachment de Dilma era o refém que garantia a segurança de Eduardo Cunha, obrigando o PT a defendê-lo, além de defender a si mesmo. A crise política paralisava o governo e o País, agravando ainda mais a crise econômica e deixando o povo cada vez mais revoltado contra o PT.

Quem joga pôquer, sabe: quando a mesa é alta e a mão é péssima, melhor blefar do que encarar a derrota iminente; foi o que Cunha fez. E o PT resolveu pagar pra ver, até porque tem as cartas mais altas do jogo: maioria no Congresso, planos sociais que (ainda) garantem apoio do povo e a figura (ainda) mítica de Lula, que acabaria sendo também queimada no processo de desgaste.
E agora, o que vai acontecer? Arrisco-me a dizer que nada, porque o PT deve ter-se calçado bem, antes de iniciar a arriscada corrida; votos serão comprados na surdina, campanhas de apoio a Dilma serão deflagradas por todo o País, principalmente nas redes sociais, e o povo será mais uma vez ameaçado com o fim das Bolsas (escola, família e o escambau), se “os inimigos” vencerem.

Aposto como Cunha cai e o impeachment não rola. E, com o fim dessa ameaça, Dilma sairá “legitimada”, fortalecida e com maior governabilidade, na certeza de que levará até o final o seu mandato; atenua-se a crise política e isso deverá melhorar também o panorama econômico. De bônus, o governo se vê livre de Cunha, um “aliado” sempre perigoso.
Mas, ainda que haja a (improvável) queda de Dilma, o que pode acontecer? Ou teremos um (quase impossível) golpe de estado, com o apoio de MST, CUT, sindicatos e similares, ou o PMDB assume, com apenas 2 anos de mandato, tempo insuficiente para consertar as coisas, ainda mais com o PT na oposição.

Neste caso, em 2018 teremos novas eleições, que com certeza marcarão a volta triunfal de Lula, com o PT mais uma vez fortalecido, como “o partido que mudou a vida do pobre e soube respeitar a legalidade e a vontade do povo”. O quadro será bem diferente do de agora, em que Aécio bate Lula nas pesquisas.
Pessoalmente, prefiro que Dilma não caia. Acho que ela é culpada apenas de burrice política e administrativa, e entregar o governo ao vice que temos seria, no mínimo, TEMERário.

Mas, qualquer que seja o desfecho dessa história, não é uma jogada de mestre?!   

8.17.2015

SOBRE PROTESTOS E MUDANÇAS



Tenho acompanhado com interesse os protestos por todo o País.

Lá não vou, claro, porque o comodismo natural da idade não mais me permite essas peripécias. Mas acho muito bom que existam, para sinalizar ao governo que está na direção errada; precisa mudar a atual orientação e combater a corrupção.

Até aí, tudo bem. Agora, tirar realmente Dilma é uma ideia que, acredito, não passa pela cabeça de alguém que esteja em seu juízo perfeito. Ou ninguém percebeu ainda que o substituto seria Michel Temer? Essa troca, além dos estragos que faria à imagem do Brasil, é temerária, com perdão do trocadilho. 
Faz-me lembrar uma história, sobre a morte de um feitor de engenho muito cruel. Os escravos comemoravam, mas havia um, preto velho e experiente, que permanecia quieto a um canto, mudo e de fisionomia fechada. Os outros foram reclamar com ele, porque não estava comemorando a morte do tirano, e ele, pitando o seu cachimbo, falou: “- Eu estou é preocupado. Esse, a gente já conhecia; e se vier um pior do que ele?”.

Para mim, é bem o caso. Até aqui, tudo que se pode acusar Dilma é de incompetência; ninguém foi capaz de provar que ela participa da corrupção. Já o outro... bem, é velho conhecido do povo, pra dizer o mínimo.
Os que me conhecem, sabem que a minha única orientação partidária é ser contra o PT; e mesmo assim, por razões pessoais: não gosto do PT, como a gente não gosta de uma namorada muito amada que nos traiu. E a verdade é que o PT traiu todo o povo brasileiro, institucionalizando a corrupção que tanto combatia.

Não gosto do PT. E, por extensão, não gosto de Lula, nem de Dilma, nem de Wagner, nem dos que rezam pela cartilha da estrela. Não acho que o governo está no rumo certo, nem que o Brasil deve apoiar essas maracutaias que aparecem todo dia. Mas uma coisa é dizer que a carne está crua e outra bem diferente é jogá-la diretamente na fogueira: ela vai virar cinzas, é claro.
Aos protestos, portanto, todo o meu apoio. Vamos reclamar, sim; vão para a rua, mostrem que o povo não está satisfeito, que algo precisa mudar neste Brasil. Vão, no nome de vocês e em meu nome, também; me representem, porque aos 67 anos não tenho mais saco pra essas coisas (e pra muitas outras, aliás). Vão e protestem! Eu fico em casa, bebendo minha geladinha.

Meu apoio aos protestos. Agora, quanto a tirar Dilma na raça... pensem bem. Vocês já pensaram que pode ser pior ainda?!  

11.06.2014

JUIZ É DEUS!


  
Mesmo neste País, de tantos absurdos, fiquei surpreso ao saber que estamos firmando jurisprudência neste sentido!
Deu na internet: uma agente de trânsito, no RJ, foi condenada a pagar R$ 5.000,00 de indenização a um juiz de direito, por ter dito que “Juiz não é Deus”, quando o meritíssimo tentou dar uma “carteirada” ao ser detido numa blitz, por dirigir sem habilitação e sem documentos do carro.
Dá pra acreditar nisso?! Segundo o outro meretriz (perdão: meritíssimo) que deu a sentença, a agente foi “ofensiva e debochada” e desrespeitou a autoridade do juiz infrator (que, segundo o noticiário, já havia sido parado em outra blitz e recusado o teste do bafômetro).
No meu entender, o próprio infrator desrespeitou a dignidade do cargo, tentando colocar-se acima da Lei. Como fica uma nação onde os encarregados de fazer cumprir as leis não são obrigados a cumprí-las? Boa pergunta, não é?
Além de ridículo, o incidente é perigoso. Jurisprudência, até onde sei, é usar as decisões anteriores de juízes, como base para novas decisões judiciais; a menos que eu esteja enganado, é uma prática consagrada em todos os tribunais, de todos os países.
Ao punir um agente oficial por ter dito que “Juiz não é Deus”, o meretriz (perdão: meritíssimo) que assim decidiu firma jurisprudência sobre o assunto; e levando o raciocínio um pouco mais longe, praticamente deixa registrado que juiz é Deus; e pode fazer o que quiser.
Mais: se considerarmos que ele é também juiz, ao prolatar tal decisão não estaria o digno magistrado “decidindo em causa própria”? Diante da possibilidade de pagar uma quantia dessas, qualquer agente de trânsito não pensaria duas vezes antes de multar um juiz? Por mais certo que estivesse, diga-se de passagem!
Perfeito retrato do país onde vivemos, o vergonhoso episódio teve um lado positivo: o repúdio da sociedade organizada, que já suporta mais tanto abuso e tanta corrupção, principalmente por parte daqueles que deveriam defender a lei e a ordem.
Em menos de 24 horas, a “vaquinha” (pela internet) para ajudar a agente a pagar a multa, arrecadou mais do que o dobro do valor necessário! Isto prova que, finalmente, o nosso povo está adquirindo consciência política e apoiando aqueles que fazem valer a cidadania, coibindo os abusos. E mostra também porque os poderosos querem amordaçar a  internet.
Talvez nem tudo esteja perdido. E, já que estamos falando em juízes, talvez esteja na hora de lançar um novo grito de guerra, como foi o das “Diretas Já”.
Volta, Barbosão!

10.27.2014

ERREI. GRAÇAS A DEUS!





Há exatos 20 dias, postei aqui que o PT (leia-se: Dilma Rousseff) ganharia as eleições presidenciais no segundo turno. E de goleada.
Graças a Deus, errei a segunda parte da previsão. E digo isto porque a vitória apertada de Dilma foi, a meu ver, a melhor coisa para o País. Até porque não sei se Aécio seria, realmente, a mudança que o Brasil precisa; e, com este resultado, o próprio PT já sabe que precisa fazer mudanças.
Este é o recado que fica das urnas: o povo não está satisfeito com o PT. Aécio não foi eleito porque não despertou a credibilidade necessária para derrubar um partido que há 12 anos está no governo; e que sabe utilizar a máquina e a propaganda a seu favor.
Se Marina tivesse passado para o segundo turno, talvez outro tivesse sido o resultado final e o PT estivesse hoje amargando uma derrota ainda pior. Digo “ainda pior”, porque acredito que, para o PT, este resultado não foi uma vitória, mas uma derrota.
Convenhamos: 51 a 48%, para o partido que criou as bolsas isso e aquilo (só o Bolsa Família tem, entre os beneficiados, mais eleitores do que há em São Paulo, maior colégio eleitoral do País) e com mais de uma década de poder, é um resultado pífio, para dizer o mínimo.
Que ninguém se engane: este resultado não é um sinal verde para o PT; acende o alerta amarelo. E desenha um Brasil mais politizado e eleitores mais conscientes, embora sejam lamentáveis o baixo nível da campanha e a abstenção de 21%; mais de um quinto do eleitorado renunciou a mostrar a sua vontade. Em uma eleição definida por 3% de diferença, os omissos poderiam ter mudado o quadro; com folga.
Mais uma vez, prevaleceram os maiores cabos eleitorais do PT: a pobreza e a ignorância de grande parte dos eleitores. Como eu havia previsto (e nesta parte acertei em cheio), o PT teve uma votação arrasadora nas áreas mais pobres e menos escolarizadas do País. Mas nenhuma vitória se sustenta por muito tempo, quando é baseada na fome e no medo.
E não adianta descer o cacete nos nordestinos (como fazem alguns revoltados e desinformados,aproveitando a comodidade das redes sociais), pela votação de Dilma. Só quem padece com hemorroidas, sabe porque teme o papel higiênico; ninguém entende a situação que não vive. Ninguém sabe o que é a pobreza, a menos que viva nela.
A solução, portanto, não é jogar uma bomba no nordeste. Como sabem os realmente inteligentes, é resgatar a dívida histórica de presidentes que nada fizeram pela região; é construir um Brasil que seja o mesmo, cultural e economicamente, em todos os estados. É oferecer oportunidades iguais para todos, educação do mesmo nível, empregos e desenvolvimento para todos os brasileiros.
É isto que o povo quer. E a mensagem das urnas, longe de referendar Dilma e o PT, ratificou os protestos recentes, que tomaram todo o País; desta vez, sem excessos nem violência. Sem as máscaras dos blackblocs, nem as bandeiras vermelhas do PT; em paz, com sensatez e maturidade. Como deve ser, em uma verdadeira democracia.
Esta é a mudança que precisa ser feita: construir um Brasil igual, em todas as regiões e todos os estados; um Brasil onde ninguém dependa de Bolsa Família ou outras “caridades”, mas todos tenham educação e empregos, para que possam viver com dignidade, ganhando o pão com o suor do seu rosto. Talvez seja uma utopia, mas gosto de pensar que podemos chegar lá.
Pelo menos, já estamos no caminho. Estamos aprendendo a votar.  

10.14.2014

A QUASE IMPOSSÍVEL BUSCA DO SEXO NOS ANOS 60



Já faz muito tempo que li Milan Kundera.
E acho que não gostei muito. Tanto, que nem me lembro do texto. Mas, naquele tempo “A Insustentável Leveza do Ser” era leitura obrigatória de todo pretenso “intelectual”; e, com meus cerca de 17 anos, era nessa categoria que eu me julgava enquadrado.
O maior atrativo do livro, se não me falha ainda mais a memória, eram as descrições de um sexo desenfreado e sem limites; o mesmo fator, aliás, que deu grande sucesso à trilogia “Sexus”, “Plexus” e “Nexus”, de Henry Miller, também daquele tempo.
Fácil de explicar: não havia internet, nem sites pornôs, e os poucos filmes dedicados à nobre arte do sexo só passavam em cinemas obscuros, onde a gente ia pra tocar punheta. Punheta, aliás, que também honrava as poucas revistas que mostravam mulheres nuas, a grande maioria importada da Suécia e mostrando fotos de nudistas, cada uma mais esquisita que a outra.
Sacanagem da grossa, mesmo, só nos famosos catecismos, onde pontificava o Carlos Zéfiro. Desenhos rústicos, de mulheres com coxas e bundas absurdamente grandes e homens com pirocas que deixariam o Kid Bengala com complexo de inferioridade. Nos desenhos, funcionavam; na realidade, duvido que um troço daquele tamanho levantasse!
Era duro molhar o biscoito! Naquele tempo, as namoradinhas não cooperavam e conseguir alisar uma coxa, só com uns 3 meses de namoro; e daí não passava, acreditem. Menina que deixasse botar nas coxas (o máximo que se conseguia) ficava logo “mal falada”. Quase o contrário de hoje.
Não tinha drive-in nem motel. Os bregas eram poucos e na maioria vagabundos: o 63, a Maria da Vovó, a Ladeira da Misericórdia. Os melhores eram o Tabaris e o Sonho Azul; mas onde que os adolescentes iam arranjar dinheiro pra ir lá?
Sério, não era fácil! Lembro-me que, por muito tempo, os meus livros preferidos foram “A Carne” e “O Amante de Lady Chatterley”; ainda bem que minha mãe nunca teve curiosidade de descobrir porque eu gostava tanto de ler no banheiro. Só reclamava, porque eu demorava muito lá. 

Data daquela época, inclusive, a minha paixão pela mitologia grega; e, diga-se, de passagem, "paixão" aqui é um termo muito bem empregado. Acontece que meu pai tinha um alentado compêndio (gostaram? é adequado para a época) sobre o assunto, onde pontificavam sugestivas gravuras de ninfas seminuas, sátiros entusiasmados e deusas gostosíssimas, com túnicas mínimas. Aí... já viu, né? A mão e a imaginação faziam o resto.

Além disso, o livro contava as picantes (literalmente, aliás) aventuras de Zeus, que não dava mole (também ao pé da letra) e não economizava esforços para satisfazer a libido. Transformou-se em cisne, para afogar o ganso na Leda, e em touro, para fazer com a Europa o que hoje em dia os políticos europeus estão fazendo, com bem menos esforço.  

Outro material, digamos, lúdico, naqueles tempos bicudos, eram as revistinhas de cordel, de impressão vagabunda e vendidas nas feiras. Contavam, em versos de pé quebrado, as aventuras de homens e mulheres excepcionalmente bem dotados e cheios de tesão.
Engraçado que até hoje me lembro de algumas. Veja os títulos: “O Plebeu que Comeu a Rainha”, “A Princesa que deu Pro Alfaiate do Reino” e por aí vai. Minha preferida era a história de Aragão, que, segundo o versinho, tinha um saco tão grande que “só a pele do culhão dava pra forrar um colchão” (e de casal, o autor fazia questão de salientar).
Outro grande “quebra-galho” eram os livros de bolso, com aventuras de detetives tarados. Eu era fã de Shell Scott, que comia todo mundo, mas apreciava ainda mais Brigitte Monfort, a filha de Giselle (a espiã nua que abalou Paris, outra personagem); Brigitte era uma morena linda, gostosa e insaciável, rainha das minhas homenagens solitárias.
Agora, na certa, você quer saber: e o que o Milan Kundera tem a ver com isso? Nada, sinceramente, É que eu pretendia escrever um post bem filosófico, tratando sobre “A Pesada Carga de Ser”, ou coisa assim, mas entrei pela sacanagem e não deu mais pra sair.
De toda forma, valeu a viagem nostálgica. Fico devendo o post filosófico, mas prometo que depois eu faço! Me aguardem.
 Viram as imagens, lá em cima? Não era uma gata, a tal da Brigitte?