UMA PESSOA NORMAL

Pode ser aquele caladão, sério, que apenas mastiga um “Bom dia”, na hora em que chega, e responde às perguntas que lhe fazem; aquele que parece pedir desculpas por existir.
Ou o barulhento, extrovertido, que tem sempre uma piada para contar; que brinca com toda a galera, que anima o ambiente. Ou ainda o meio-termo, aquele tão comum que nem dá na vista. De toda forma, um colega de trabalho; alguém que faz parte de seu mundo.
Aí, de repente, você vê o cara na TV, enquanto o repórter diz que ele surtou e mandou bala em todo mundo, durante a reunião do condomínio, ou na sessão de cinema; ou que deu 32 facadas na mulher. Ou que matou toda a família e se suicidou; ou, ainda, que pegou a filha de 6 anos e a atirou pela janela do sexto andar.
De repente, ele deixa de fazer parte do seu mundo. Passa para o lado dos criminosos, das aberrações, de pessoas que nem parecem reais. Depois de algumas semanas de comentários, a própria lembrança dele desaparece. Será como se nunca houvesse estado a seu lado, trabalhado ali. É assim que a sociedade se defende: apagando da memória as verdades que possam doer.
E a verdade é que ele esteve ali, sim; comentou com você o futebol, o dia chuvoso, o que havia feito no fim de semana, a briguinha com a mulher, o probleminha do filho na escola, o vizinho chato, a falta de dinheiro.
Talvez vocês até mesmo tenham almoçado no restaurante da esquina, tomado um chopp juntos, falado sobre a gostosa do escritório ao lado, ou sobre o novo carro do chefe. Ele era uma pessoa normal, como todas as outras. Como você. Como eu.
O que estamos fazendo de nós?
Desculpe por este texto, num fim de semana,
mas estava preso na garganta. E no coração.
Eu não sei colocar fundo musical no blog;
se possível, leia ouvindo “Admirável Gado Novo”, do Zé Ramalho.
É por aí.