1.10.2006

DEPOIS DA MISSA DO GALO, A MISSA DO PINTO



Como diversos (aliás, a maioria) dos amigos que me honram com a leitura deste blog não são de Salvador e podem não ter visto o Jornal Nacional da semana passada, deixem-me resumir rapidamente o assunto.

O Padre Pinto (certos nomes são paradoxais, principalmente quando o que denominam não pode ou, pelo menos, não DEVE ser usado, em função da profissão escolhida) é o responsável pela paróquia da Lapinha, aqui na agradável capital baiana.

Na semana passada, talvez para comemorar o início das festas populares, o referido Pinto rezou a missa tradicional, travestido de diversos personagens: índio, pai de santo e outros menos votados, por cima da eclesiástica batina. Bailarino clássico por formação, dançou (ao som de atabaques) músicas afro-brasileiras e caprichou na coreografia; inclusive, imitando razoavelmente bem os trejeitos de um médium ao “receber o santo”. Pelo jeito, receber é com ele!

Como era de se esperar, o escândalo foi grande. A diocese distribuiu nota oficial, dizendo que o padre precisava de terapia, e os fiéis fizeram um abaixo-assinado, para que ele fosse retirado da paróquia. O padre leu esse abaixo-assinado em outra missa e, chorando, disse que ama a Lapinha e quer morrer no altar daquela igreja. Tudo isso foi transmitido pela TV, em rede nacional.

Beleza, não é? Principalmente porque o pároco, por seus trejeitos exagerados e entonações de voz, mais me parece que deveria chamar-se “Quero Pinto”, do que simplesmente o próprio.

Aqui, deixem-me colocar uma coisa: concordo inteiramente com um dos comentários feitos na minha postagem passada: “quem tem o que é seu, dá a quem quer”; nada tenho contra a opção sexual de ninguém. A menos, é claro, que venham a querer exercer comigo essa opção; aí, serei forçado a defender o meu próprio direito de só dar o que é meu a quem eu quiser. No caso o pinto, não o padre.

Também, não sou católico. Assim, não me considero ofendido pelo episódio; nem pessoalmente, nem nas minhas convicções religiosas.

Apenas, por uma questão de lógica, acho que o padre deveria respeitar mais a profissão que escolheu: a Igreja Católica é uma instituição e tem as suas normas, inclusive em questão de roupas. Estas devem ser obedecidas pelos que a seguem e, principalmente, pelos seus funcionários; um padre, em última análise, nada mais é do que um funcionário da Igreja. Vocês já viram algum bancário trabalhando de bermuda? Ou dançando samba no trabalho?

Também entendo a revolta dos fiéis: quem vai a uma igreja católica, quer encontrar um padre; quem quer encontrar um pai de santo, vai a um terreiro. Embora seja preciso admitir que, aqui na Bahia, a maioria das pessoas vai a ambos, realmente a mistura não podia dar certo; eu bebo café e cerveja, mas nunca ao mesmo tempo.

Ao menos, o incidente teve um lado positivo: a novidade. Eu nunca tinha visto um Pinto rezando missa. Neste tipo de altar, bem entendido...

15 Comments:

Anonymous paulo said...

Mestre Flávio, por questão de curiosidade artística - e muito embora seja eu de São Paulo -, tenho acompanhado com atenção o caso do reverendíssimo Padre Quero Pinto - do qual tomei conhecimento no último Fantástico. Tenho procurado me informar a respeito e, afora o vosso texto (que, dos que li, foi o melhor), chamou-me a atenção nota oficial da Igreja, na qual foi dito que essa questão se trata de um problema cuja solução demanda uma "saída terapêutica". Vão internar o pobre Padre Pinto, provavelmente numas dessas clínicas de protestantes.

11:40 AM  
Blogger Flávio said...

Dom Paulo, muito me honra a vossa classificação do texto! Confirmo a nota oficial da igreja, mas acho que não vai adiantar muito: no caso, me parece, uma "entrada teraupêtica" seria bem mais agradável ao nosso bom padre! :)

12:08 PM  
Blogger Paulinho said...

Deus me livre!

2:34 PM  
Blogger Flávio said...

Paulinho, bom ver vc aqui! Mas vc não explicou: Deus te livre... do padre ou do pinto? :)

6:38 PM  
Anonymous Roberto said...

Bem, se o padre fosse um pinto normal, provavelmente iria gostar muito de ser internado.

9:23 PM  
Blogger Flávio said...

Roberto, com certeza! Todo pinto adora um internamento... :)

9:25 PM  
Anonymous Serbon said...

Mestre Flavio, o Pinto é uma demonstração muito exemplar de como aa Igreja Católica evoliu em matéria de tolerância e respeito às minorias.
Ele é a primeira drag-queen a se tornar sacerdote !
O pe. Marcelo Rossi já contratou um maquiador e vai caprichar na pancake!!!

9:41 PM  
Anonymous Anônimo said...

Já pensou se a moda pega? Milhares de párocos iriam soltar a franga nas igrejas. Bem verdade que foi realmente um espetáculo, ainda que fora do palco apropriado. Acredito que agora, ele vai precisar de terapia, para justificar, diante da comunidade, que naquele momento estava em surto. Fico só imaginando a cara do Papa, (que é da linha ortodoxa), assistindo a cena.
Flávio, se a reportagem tivesse sido feita por você, por certo, acharíamos que estava falando de uma tragicomédia. Só mesmo um mestre, para transformar o ocorrido, em um texto inteligente, hilário e com um toque picante.

10:37 PM  
Blogger Flávio said...

Serbon, não sei se evoluiu tanto, não... vc não viu a sugestão da "saída teraupêtica"? Mais me parece que eles tão procurando uma saída honrosa... se é que isso é possível! :)

12:35 AM  
Blogger Flávio said...

anônimo, obrigado, mas o mérito não é meu: a história já é naturalmente "picante"; afinal, desviado ou não, trata-se de um pinto... :)

12:42 AM  
Blogger Flávio said...

Galera, muito obrigado pela presença; parece que o nosso padre vai quebrar o recorde de visitação do blog.
Ou seja: pelo menos nisto, esse pinto bomba! :)

12:54 AM  
Anonymous Júnior said...

Flávio, estou dando a minha contribuição para o Pinto continuar bombando.

9:31 PM  
Blogger Flávio said...

Júnior, agradeço em nome do bom padre. Se bombar o suficiente, talvez o Pinto se recupere!:)

2:43 PM  
Anonymous Lourdinha said...

Tadinho do padre... se tivessem deixado o Pinto se expor à vontade, nem precisaria de carta explicativa.
Até porque, a exposição do Pinto foi explícita e não precisa de bula ou modo de usar...
Amei o texto

12:23 AM  
Blogger Flávio said...

Lourdinha, e eu o comentário sutilmente dúbio (ou dubiamente sutil). Mas no caso desse Pinto, mesmo que tivesse instruções de uso, não ia adiantar muito; precisava mais é de uma garantia de fábrica! :)

11:41 AM  

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