12.15.2006

CRÔNICA DE NATAL


Esta história aconteceu comigo, há alguns anos. Foi uma época muito dura para mim e talvez por isto o episódio me marcou tanto. Já o publiquei em dezembro do ano passado, mas então o blog engatinhava e tivemos apenas 3 comentários. Acredito que nenhum de vocês o conheça.

Desculpem a republicação. É a minha maneira de agradecer a vocês pela companhia e dizer a todos, com antecedência: Feliz Natal!!!

Época de Natal.

Estou só, na rua. A solidão é uma presença quase palpável; tão real, que me parece ouvir o eco dos seus passos, junto aos meus, nas pedras da calçada.

Aperto, no bolso das calças, a nota de vinte reais. É o meu único tesouro: tudo que me restou do salário, depois de pagar as contas. Na casa humilde, longe deste bairro da chamada “classe média alta”, o frango e o vinho barato já estão comprados; são petiscos especiais, para a noite de Natal. Não sei porque, uma parte de mim ainda acredita nesta época como um tempo de magia.

Na rua, há casas bonitas e edifícios enormes; todos decorados com luzes coloridas, que piscam sem cessar. Até as árvores dos jardins estão cobertas de lâmpadas; como se as estrelas descessem à terra, brilhando sobre o sonho do amor entre os homens, que um Nazareno sonhou há dois mil anos.

De algum lugar, vem o som de “Noite Feliz”: música suave, palavras lindas de amor e paz. Por um momento, quase acredito neste sonho.

Passo diante de um edifício muito alto, que se destaca entre os outros. O seu jardim parece um canteiro de estrelas, e toda a fachada está coberta de luzes. Nas varandas, nas janelas, brilham milhares de lâmpadas; como se quisessem anunciar ao mundo que o amor ainda existe, que podemos ser irmãos.

Entretanto, no topo do prédio existe uma área escura. Percebo, confusamente, o desenho de uma enorme estrela, sobre um grande letreiro; mas as lâmpadas estão apagadas, enquanto todo o resto do edifício resplandece de luzes e cores.

Levo a mão ao bolso da camisa, pego um cigarro. Noto que o maço está quase vazio, preciso comprar outro: uma séria baixa, na minha fortuna de vinte reais.

Acendo o cigarro. E vejo uma mulher magra, pequena e mal vestida, sentada no chão, junto à entrada da garagem do prédio, com uma criança no colo; uma pequena trouxa humana, descobrindo os rigores da miséria.

Um carro pára em frente à garagem: grande, bonito, reluzente. Enquanto o portão se abre, a mulher estende a mão, num pedido de esmola. Mas o vidro da janela nem desce; o carro entra na garagem e o portão se fecha.

Fico por ali. E, mal termino o meu cigarro, vejo que o porteiro do prédio se encaminha para a pedinte; chamado, certamente, pelo motorista recém-chegado. Ou por algum outro morador, a quem incomodou a imagem da pobreza.

É um mulato alto e forte, o uniforme cuidadosamente engomado, bigode e cabelos bem aparados. Percebo todos estes detalhes, quando atravesso a rua; ouço as suas palavras rudes, enxotando a mulher, mandando-a procurar um albergue ou uma ponte.

Ele se cala, quando chego junto aos dois. Abaixo-me, seguro a mulher pelo cotovelo e faço com que se levante. Conduzo-a para atravessar a rua, com o andar vacilante que denuncia a fome e o cansaço.

Paramos em frente ao prédio. Olho o seu rosto sujo, desfeito, triste, macilento; percebo a mágoa e a descrença em seus olhos. E, num impulso, tiro do bolso a nota de vinte reais e lhe entrego.

A surpresa e a alegria surgem em seu olhar. Ela me entrega a criança, enquanto procura guardar a inesperada fortuna num bolso do vestido rasgado.

Seguro o pequenino contra meu peito.Olho para cima e vejo o topo do prédio, agora iluminado por uma enorme estrela, completamente acesa, brilhando sobre o letreiro: “FELIZ NATAL” !

52 Comments:

Anonymous Márcia(clarinha) said...

Flavio meu querido,
que conto belo de final feliz.
Ainda bem que existem pessoas que se importam com a miséria alheia e com a dor de uma mãe sem ter com que alimentar seu pequenino.
Esse respeito ao outro deveria acontecer todos os dias não somente no Natal...
Adorei, triste e real.
lindo findi meu amigo
beijosssssssssss

7:22 PM  
Anonymous Enoisa said...

Flávio, linda sua história! Que triste ser assim: muitas pessoas resumem o Natal a enfeites e luzes coloridas. Continuam tão mesquinhos quanto infelizes. Que Deus te guarde! Bjs!

8:44 PM  
Blogger Laura said...

Bonita sua história. Faz bem fazer bem, né?
eu gosto tb, mas não sou assim generosa, não.
Bjs laura

10:26 PM  
Blogger Flávio said...

Clarinha, não sei se o mais triste é ter acontecido... ou continuar acontecendo. Felizmente, sempre existirão pessoas que se importam... :) Bjs, bom fds

1:15 AM  
Blogger Flávio said...

Enoisa, infelizmente assim é a maioria. Ainda bem que existe a minoria! ;) Bjs, que Deus nos guarde!

1:16 AM  
Blogger Flávio said...

Laura, nem eu; esta foi uma das coisas que me impressionou. Outra, foi a estrela ter acendido... :) Bjs

1:17 AM  
Anonymous Flavia Sereia said...

As pessoas esquecem que o verdadeiro espirito de natal é esse, fazer o bem a quem realmente precisa e não dá jantares e ceia para quem está com obesidade morbita.

Uma linda historia, e aposto que no final da aqueles 20 reais nem falta te fizeram, mas que foi de muita ajuda para essa mulher.

Corre a lenda que na noite de Natal Jesus volta a terra para testar o coração dos seres humanos, ele pode vir na forma de um animal, de um pedinte, de uma criança, um velho, não importa a forma. Quando ele encontra pessoas como esse motorista do carro de luxo ou o porteiro, suas feridas do calvario sangram, mas quando encontras pessoas que fazem o que vc fez, o céu se enche de luz.

Preciso dizer mais alguma coisa?? ;)

bjs

3:03 AM  
Anonymous cilene said...

Flavio , fiquei toda arrepiada, quase chorei..ando super emotiva..a miseria e a pior doenca do mundo...e nao entendo porque tantos igonaram essa realidade..o mundo poderia ser melhor..se todos agissem como vc..

4:06 AM  
Blogger Tina said...

Flavio, lindo e triste. Dura e tão presente realidade. Bom saber que ainda existe bondade e compaixão na terra.Faz a gente ter esperança.

beijo grande querido,

10:39 AM  
Blogger Rita Contreiras said...

Mais uma vez vc me emocionou... Como somos ricos e ignoramos isso, né? Faço questão de lhe dizer que a sua essência, emanada dos seus escritos, foi um dos belos presentes esse ano para mim. Que esse Natal e toda sua vida seja um hino de amor, alegria e prosperidade. Grande abraço.

3:55 PM  
Blogger Flávio said...

Xará, eu conhecia a lenda... e acho linda! O mundo seria outro, se pudessemos ver em cada necessitado um irmão em Cristo... :) Bjs, bom fds

6:34 PM  
Blogger Flávio said...

Cileme, é como diz aquela velha frase: se cada um varrer a própria calçada, o mundo ficará bem mais limpo. E a sensibilidade sempre foi uma boa, viu? ! ;)

6:36 PM  
Blogger Flávio said...

Tina, apesar de tudo, a bondade e a compaixão fazem parte do ser humano... graças a Deus! Bjs, bom fds

6:38 PM  
Blogger Flávio said...

Bela frase, Rita: "como somos ricos e o ignoramos"... quanta coisa recebemos de Deus, não é? Sempre! :) Bjs, tks... e que Ele nos abençoe a todos!

6:47 PM  
Blogger Vera Fróes said...

Flávio, linda hist´poria que retrata bem como muita gente vê no Natal, muito enfeite mas sem compaixão nenhuma com o ser humano. Eu me comovo com pessoas assim, sempre que me deparo ajudo. Se cada um ajudar um pouquinho, o Natal fica mais humano e menos comercial.

Bjos.

8:52 PM  
Anonymous Anne said...

Que lindo gesto de amor ao próximo heim Flávio!!! Estou emocionada..
Um pena que ainda existam pessoas q nao se importam nem um pouquinho com os problemas dos outros, principalmente a fome que acho um dos problemas mais graves q a humanidade enfrenta... é triste demais sentir fome, dói mais do uma surra...
Por outro lado, felizmente existem ainda alguns "Flávios" para ajudar pessoas assim a terem um Natal menos duro
Beijo meu querido...

9:03 PM  
Anonymous Blogue da Magui said...

A vida é dura para todos mas para alguns os resultados são piores.Eu conheço um caso igual a este onde um cara deu todo o dinheiro que tinha para outro mas não vou contar para não ser chata.Bela história real ou imaginária!!

12:22 PM  
Blogger Mago said...

Lindo conto e final muito bom, gostei dos detalhes e espero que este fim de ano seja umpouco melhor pra todos. Um grande abraço do Mago.

5:34 PM  
Blogger *Clara* said...

É por essas e outras razões que eu não consigo ser feliz, sabendo que tem tanta gente literalmente excluida do nosso mundo.

Isso me machuca, me fere tanto!!!

Seu relato é lindo e emocionante.

Tenho certeza que depois desse dia, sua vida foi ricamente abençoada pois vc deu o melhor de si naquele momento.

Parabéns, a história é linda.

Grande beijo

8:55 PM  
Anonymous gabriel said...

Flávio, fiquei emocionado com sua história. Sinceramente.

Infelizmente, nossa realidade é assim: quanto mais dinheiro as pessoas tem, mais frias elas se tornam, salvo raras excessões.

Porém, cabe a nós tentarmos mudar isso, correto? Afinal de contas, se tem algo que Jesus nos ensinou é a não perdermos a esperança, jamais.

Abraços e um ótimo Natal!

9:27 AM  
Blogger Claudio said...

Não conhecia. Lindo conto de Natal !!!! Próprio de pessoas sinceras e humanas como você.
abração

12:01 PM  
Anonymous Serbon said...

maldade off topic- presentão de Natal quem ganhou hoje foi o ilustre deputado Grampinho, né?
Flavio, o que comentam por aí? a mulher que desferiu a facada na bunda do ACM Neto era uma amante repudiada???

4:25 PM  
Blogger Marcia said...

Que lindo Flávio :)

6:47 PM  
Blogger Flávio said...

Vera, como naquela velha história: cada um acendeu uma vela, e a noite ficou cheia de luz... ;) Bjs

8:27 PM  
Blogger Flávio said...

Anne, acredite: nós, os que acreditamos no próximo e ajudamos, ainda somos maioria. Este é o espírito do Natal, não é? :) Bjs

8:30 PM  
Blogger Flávio said...

Magui, eu já fui dirigente de templo religioso por algum tempo, e aprendi que a gratidão praticamente não existe... portanto, vc não seria chata! :) A grande recompensa é, mesmo, a alegria de ver alguém sorrir, sempre. Ah! Obrigado pela classificação da história, viu? ;)

8:33 PM  
Blogger Flávio said...

Mago, esperemos que melhore mesmo, não é? pena que os nossos queridos deputados já salgaram o nosso fim de ano... :( Abração

8:34 PM  
Blogger Flávio said...

Clara, realmente é difícil ignorar o sofrimento que nos cerca e todos os dias invade os nossos olhos e a nossa vida. E a verdade é que no Natal ficamos ainda mais sensíveis a ele... Bjs

8:36 PM  
Blogger Flávio said...

Gabriel, creia que eu tb fiquei: já tem alguns anos, mas nunca esqueci A coincidência da estrela acender foi realmente impressionante! Abração, bom Natal

8:38 PM  
Blogger Flávio said...

Obrigado, Cláudio... mas tenho certeza que não sou o único. Aqui, creio que todos pensamos assim, né? ;) Abraço grande

8:40 PM  
Blogger Flávio said...

Serbon, pois é... grampearam o Grampinho, né? Mas a mulher parece que é pirada: ela disse que esfaqueou o Neto para protestar contra o aumento dos parlamentares. Pior que, se a moda pega, eles vão pedir verba extra para pagar guarda-costas... ;)

8:43 PM  
Blogger Flávio said...

Márcia, acredite: foi um daqueles lances que nunca mais se esquece... :)

8:44 PM  
Blogger G. Pinheiro said...

É, isso me lembra aquele conto de natal clássico da Disney no qual os espíritos da pobreza vão visitar o Tio Patinhas, e aí ele fica bondoso etc, etc, lembra?

Bem legal..

Abraço rapaz, boa semana e bom natal, se não nos falarmos até lá

9:20 PM  
Blogger *Clara* said...

beijinhos pra semana começar bem...

9:39 PM  
Anonymous Serbon said...

Flavio, se o motivo era esse, então a mulher não é louca!!! hehehehehehehee

9:50 PM  
Blogger Flávio said...

Gabriel, lembro, sim! O nome original era "Uncle Scrooge", numa referência ao personagem de Dickens. Esse conta, aliás, é um dos clássicos da literatura mundial! Acho que a gente se fala, sim, mas por via das dúvidas... feliz Natal! :) Abração

11:48 PM  
Blogger Flávio said...

Clara, tks... bjs! ;)

11:50 PM  
Blogger Flávio said...

Serbon, pelo motivo até que não. Mas... esfaquear o neto do ACM, na Bahia?! Com certeza é louca, sim!!! ;)

11:51 PM  
Anonymous cilene said...

passando para deixar um abraco

4:56 AM  
Blogger luma said...

Este conto certamente é para nos fazer lembrar do verdadeiro espírito do Natal, da estrela que brilha no céu nos trazendo esperanças de dias melhores.
Cada um sabe da sua dor, mas esquecemos de quem está pior.
Leu sobre a proibição de dar esmolas em São Paulo?
Boa semana! Beijus

10:50 AM  
Anonymous marconi leal said...

Flávio, muito bonita a história e a maneira contida, precisa como você a contou. Grande abraço e feliz Natal!

6:21 PM  
Blogger Flávio said...

Brigadão, Cilene ! E esse abraço veio de longe... ;)

6:47 PM  
Blogger Flávio said...

Luma, ainda não vi nada sobre o assunto. Proibição oficial, mesmo? Com lei e tudo?! Caramba!!! :( Bjs, boa semana

6:51 PM  
Blogger Flávio said...

Marconi, brigadão... tou aprendendo com bons professores! ;) Abração, Feliz natal!

6:52 PM  
Blogger Eduardo Inácio said...

Conto muito bonito e interessante.
Aliás, narrativa bem bacana.Gostei bastante.

Abraços !

8:01 PM  
Anonymous Olhos de Mel said...

Flávio, tive a felicidade de ler esse conto ano passado e esse, realmente, vale a pena ser recontado. Muito lindo!
FELIZ NATAL pra você e todos que fazem essa familia Opiniaum.
Beijos

9:04 PM  
Blogger Flávio said...

Eduardo, brigadão. E grande abraço pra vc! :)

10:38 PM  
Blogger Flávio said...

Olhos doces, vc realmente é sócia fundadora... no ano passado, estávamos iniciando! :)Feliz Natal para todos nós, que fazemos esta família Opiniaum, né? ;) Bjs

10:40 PM  
Anonymous Júnior said...

Flávio, mesmo com atraso preciso registrar que este conto é muito legal. Eu não conhecia.

11:40 PM  
Blogger Flávio said...

Obrigado, Júnior. E vc contribuiu para fecharmos num número redondo! :) Abração

6:57 AM  
Blogger Clayton said...

Olá Flávio,

Encontre seu conto de natal enquanto procurava algo para ser publicado no site da empresa onde trabalho. Aliás gostei muito!
Quero saber se você permite que eu inclua seu conto graciosamente em nosso site?
Precisaria de seu sobrenome para poder lhe creditar a autoria de seu conto. Aguardo resposta através do meu e-mail: clayton@lewasa.com.br.
Abraços e Feliz Natal!

8:43 AM  
Anonymous Anônimo said...

NÃO É UMA CRÓNICA

10:57 AM  

Postar um comentário

<< Home