8.16.2006

DE AUTORES E PERSONAGENS


Não faz muito tempo, o Serbon publicou um conto legal, narrando as aventuras e desventuras de personagens, e como estão sujeitos aos caprichos do autor,

Aparentemente, para os seus personagens, o autor é como Deus: é ele quem lhes dá e tira amores, dinheiro, saúde e a própria vida. Os personagens estão inteiramente sujeitos ao autor, certo?

Errado. E quem escreve sabe disto. Não são poucas as vezes em que o personagem ganha vida própria, extrapola os desejos iniciais do autor e determina ele mesmo o seu destino. Ou, pelo menos, o modifica. O personagem influencia o autor.

Isto aconteceu comigo, em relação ao Kazu do post anterior. Ainda me lembro que acordei com o que chamo de “banzo”: uma nostalgia vaga, uma tristeza imprecisa. Era uma manhã de domingo, cedo ainda, e todos dormiam; fui para o computador, sem qualquer idéia preconcebida, e surgiu o conto; brotou o personagem.

Estranho como interagimos, à medida que eu escrevia. Entendi as suas dores, a sua solidão, a mesmice de cada amanhecer, o vazio de cada momento; a pequena ilha de sonhos onde se refugiava, para suportar a vida.

Percebi, no seu carinho pelas crianças, a saudade dos filhos que dele se afastaram, à medida que cresciam. E, mais do que isto, a saudade do amor que um dia existira em sua vida. Ao transformar os sons alegres em ecos distantes, o tempo nos deixa o mais triste dos silêncios.

Então, descobri que ele gostaria de morrer assim; no palco, entre os aplausos das crianças que amava. Morreria como Kazu, o personagem, o poderoso mago, capaz até de fazer existir a felicidade; não como Roberval, o homem derrotado pela solidão da vida.

Atendi ao seu mudo pedido. Deixei-o morrer como Kazu, para que não atravessasse a eternidade como Roberval; acho que ele não suportaria. Mas, enquanto escrevia o final, percebi que lágrimas rolavam por meu rosto. Ridículo? Talvez; mas é a pura verdade. Acho que Roberval me transferiu a sua tristeza, para que Kazu não renascesse maculado por ela.

Nessa hora, meu filho mais moço entrou no gabinete. E, lógico, estranhou as inusitadas lágrimas domingueiras. Preocupado, fez a pergunta natural:

- Que foi, pai?!

- Nada, filho; algo que estou escrevendo aqui.

Ele não disse mais nada. Mas, enquanto o abraçava, quase pude ler em seus olhos:

- Meu pai pirou!...

26 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Flávio, isso não é piração, é emoção. Muitas vezes confundimos nossas vidas com personagens. Kazu se impôs porque sua vida artística o preenchia e o tempo era pouco pra estar consigo mesmo. Todo bom escritor traz uma sensibilidade muito aguçada e até por isso, sabe dar vida e sentimentos a suas criações. Acredite, até eu enchi os olhos de lágrimas agora. Pura emoção! Lindo demais!

5:22 PM  
Blogger Flávio said...

anônimo, mas isto é realmente estranho, vc não acha? Ás vezes, me pego pensando se existe coisa parecida entre o homem e Deus... :)

5:28 PM  
Anonymous Anônimo said...

Flávio existe sim e com todas as pessoas, porém nem todo mundo está preparado para. Precisamos de percepção aguçada. Não para as mesquinharias da vida, futilidades, porém para o sublime. Ter sensibilidade, fé e acreditar.

6:14 PM  
Anonymous Serbon said...

o autor tudo pode?
numa obra aberta como uma novela é dificil. sabia que a Janete Clair, na primeira versão de Pecado Capital, queria livrar a cara do Carlão? Felizmente o Daniel Filho insistiu e o final trágico - e inesquecível - foi ao ar. E era melhor mesmo.

6:58 PM  
Blogger Flávio said...

Serbon, acho que vc, como autor, vai concordar comigo: há personagens que "não cheiram nem fedem" e a gente dispõe deles à vontade. Já outros, têm tanta personalidade que saem do papel e "fazem" o seu próprio destino.É mais ou menos como acontece com as pessoas. Nas novelas, claro, com a pressão do publico, é mais difícil ainda...:)

7:23 PM  
Anonymous Júnior said...

Flávio, como eu não escrevo contos, não tenho como opinar sobre isso. Mas é um tema interessante e curioso: o personagem segue a sua "vida" ou obedece a vontade do autor?

7:26 PM  
Anonymous Rappha said...

Professor,a história é muito boa. E acredito, porque te conheço!

9:40 PM  
Blogger Palpiteira said...

Eu gostei muito desse texto. Concordo com vc: personagens mudam o roteiro, fazem o próprio caminho.
E o mais bonito de tudo, o melhor, é poder pirar e ainda assim ter o abraço do filho amado. :)

10:45 PM  
Blogger Flávio said...

Júnior, boa pergunta! Eu diria que um pouco de cada. E, aí, vem de novo aquela pergunta: até que ponto, é isto que acontece entre o homem e Deus?

12:14 AM  
Blogger Flávio said...

Acredite, Rappha; foi assim mesmo que aconteceu. Você bem sabe que eu não minto muito! :)

12:15 AM  
Blogger Flávio said...

Palpi, este é o ponto: talvez também possamos exercer uma influência maior em nossas vidas. Aliás, o abraço de um filho é sempre um grande incentivo! ;)

12:18 AM  
Blogger Cristiano Contreiras said...

Por vezes, meus personagens me dominam! completamente...e eu me permito a essa sublime dominação.

2:20 AM  
Anonymous A Outra said...

Essa relação autor x personagem é mesmo muito interessante! :)

E eu vim aqui te dizer (sim, sozinha! O Outro foi dormir...) que queremos mudar as cortinas!

Apareça e dê pitaco!

5:43 AM  
Blogger Marcia said...

Flávio não me importo de ter que fazer lipoaspiração e implante de cabelo. Continuo querendo ser igual a você quando crecer ;)

6:18 AM  
Anonymous junior said...

Olha só flavião, que bacana. Eu sei que esse lance de personagem ganhar vida e influenciar o autor é verdade. Eu nunca escrevi um personagem fictício, talvez porque eu mesmo seja um dos meus personagens. rss

9:56 AM  
Blogger Flávio said...

Cristiano, é... interessante como acontece, a gente nem percebe o momento em que se inicia!

10:33 AM  
Blogger Flávio said...

A outra, interessante e imprevisível; esta é uma das razões pelas quais é divertido escrever! :)

10:41 AM  
Blogger Flávio said...

Márcia, o implante não precisa não; basta pintar. Cabelo ainda tenho muito, só devidamente grisalho. Já quanto à lipo... bem, aí não tem jeito! :)

10:43 AM  
Blogger Flávio said...

Júnior, é outro raciocínio interessante. De certa forma, talvez todos sejamos autores, para viver... e personagens, para conviver. :)

10:46 AM  
Anonymous Charimann said...

Tenho muitos personagens que, as vezes acabam extrapolando limites. Isso é muito estranho o.o

9:15 PM  
Anonymous Serbon said...

Flavio, já leu "Se um viajante na noite de inverno..." do Ítalo Calvino?

9:15 PM  
Blogger Flávio said...

Chari, estranho, inquietante... e não deixa de ser maravilhoso. Se os horizontes dos nossos personagens se alargam... talvez os nossos próprios horizontes sejam maiores do que imaginamos, tb. ;)

9:38 PM  
Blogger Flávio said...

Serbon, não... ainda não li o Calvino. Mas já sei que vc não pergunta nada à toa. Portanto, me diz aí: qual é o ponto? ;)

9:40 PM  
Anonymous Serbon said...

este livro discute exatamente o post... mas de forma bem humorada, e criativissima....

9:56 PM  
Blogger Flávio said...

Serbon, vou ver se encontro pra ler. O assunto é interessante e ele veio bem recomendado! :)

10:12 PM  
Anonymous Anônimo said...

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